Imagine que você está assistindo TV em casa. De repente, o jornalista interrompe o telejornal e diz, com toda a calma do mundo: “Vou me matar ao vivo no programa da próxima semana”. Assim começa a história de Howard Beale em Rede de Intrigas (Network, 1976). Prestes a ser demitido por baixa audiência, ele perde o controle diante das câmeras e começa a falar sobre a política, a economia e uma sociedade que parece estar desmoronando.
Em uma das cenas mais marcantes do filme, Beale olha para a câmera e pede que todo mundo se levante da poltrona, vá até a janela e grite:
“Eu estou furioso e não vou mais tolerar isso!”
Dezenas, centenas, milhares de pessoas colocam a cabeça para fora de suas casas e gritam no escuro. Repetir aquelas palavras parece trazer algum alívio. Finalmente, aquela gente cansada e frustrada encontra uma maneira de expressar o que sente.
Enquanto isso, os executivos da emissora comemoram. O surto de Beale aumenta a audiência, o preço dos anúncios dispara e sua revolta se transforma em um negócio lucrativo. Décadas antes dos smartphones, Rede de Intrigas já mostrava que a indignação também pode ser explorada por quem tem dinheiro e poder. Os donos da emissora não precisam calar Beale. Basta descobrir como ganhar dinheiro com ele.
Quase cinquenta anos depois, ninguém precisa mais ir até a janela. Basta abrir o feed. A televisão deu lugar às telas dos celulares, mas a lógica continua parecida: muitas vezes, aquilo que mais nos irrita é justamente o que mais prende nossa atenção.
Em Realismo Capitalista, Mark Fisher discute como o capitalismo consegue absorver até mesmo as críticas que recebe. A revolta contra o sistema pode acabar virando mais um produto vendido por ele. Nas redes sociais, isso acontece quando uma publicação preconceituosa ou uma declaração absurda se espalha justamente porque tanta gente quer denunciá-la. Você não precisa concordar com alguém para ajudar a aumentar seu alcance. Às vezes, basta compartilhar o conteúdo para mostrar o quanto ele é ridículo.
Isso fica ainda mais evidente na política. Discursos autoritários, teorias conspiratórias e ataques a minorias alimentam discussões intermináveis. A cada dia aparece uma nova declaração absurda, um novo inimigo a ser combatido, uma nova ameaça aos valores tradicionais. E lá estamos nós, compartilhando, respondendo e discutindo com desconhecidos, enquanto o autor da provocação continua em evidência.
É claro que denunciar essas coisas importa. O problema é que nem toda denúncia tem o efeito que esperamos. Quando passamos o dia reagindo às provocações de alguém, podemos acabar ajudando essa pessoa a alcançar justamente o público que ela procura. Nossa indignação é sincera, mas isso não significa que estamos conseguindo mudar alguma coisa.
É aí que entra o slacktivism: o conceito de que curtir, compartilhar e comentar sobre uma causa pode nos dar a sensação de que estamos fazendo nossa parte, mesmo quando nada além da publicação acontece. A internet tem um papel importante na organização política, mas não é difícil confundir estar informado e indignado com participar de alguma transformação.
No filme, a emissora transforma Beale em uma espécie de profeta e cria um programa em torno de suas explosões. A revolta que parecia ameaçar os interesses dos poderosos passa a fazer parte da programação. Beale continua gritando, o público continua assistindo e a emissora continua lucrando.
Não acho que a saída seja deixar de sentir raiva ou ignorar o que acontece ao nosso redor. Há muita coisa com a qual devemos nos indignar, e a história está cheia de pessoas que se recusaram a aceitar injustiças e se organizaram para combatê-las. Mas existe uma diferença entre expressar revolta e fazer alguma coisa a partir dela.
Se um discurso preconceituoso incomoda, podemos apoiar as pessoas que ele tenta atingir. Se a situação política revolta, podemos participar de movimentos, coletivos e organizações, discutir os problemas do nosso bairro e procurar maneiras de agir junto de outras pessoas. Nada disso é tão imediato quanto responder a uma publicação, e nem sempre dá aquela sensação de dever cumprido. Ainda assim, é onde nossa participação pode ganhar consequências para além da tela.
Na próxima vez que alguma atrocidade aparecer no seu feed e fizer seu sangue ferver, vale pensar um pouco antes de sair brigando por aí. Será que a melhor forma de fazer a diferença é gastar sua energia em brigas assim?
Em Rede de Intrigas, milhares de pessoas gritam pelas janelas, mas continuam cada uma dentro da própria casa. A cena é marcante justamente porque todo mundo parece compartilhar o mesmo sentimento, embora ninguém esteja fazendo aquilo junto.
Talvez esteja na hora de sair de casa.
Para saber mais:




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