Copa do Mundo chegou e, misteriosamente, o grupo da família que até duas semanas atrás estava brigando por conta de política começou a se encher de figurinha da Seleção. E agora, até a sua vó que usa dentadura vira técnica de futebol enquanto o tio chato do pavê só sabe falar dos velhos tempos de Ronaldo Fenômeno.
Essa é a Copa do Mundo, o grandioso acontecimento que faz até as pessoas que não gostam de futebol pararem por 90 minutos para ver a seleção jogar, comemoram quando ganham, choram quando perdem, mas, juntos nos dois casos. E é aí que surge a pergunta: por que conseguimos nos reunir para comemorar um gol, mas temos tanta dificuldade de nos unir para resolver os problemas desse país? Para onde vai essa força? Por que todos se separam?
O que é curioso, é como tanta gente ama a ideia de Brasil, mas nem sempre demonstra o mesmo carinho pelo Brasil real. O Brasil da escola pública, do ônibus lotado, dos artistas, dos trabalhadores e das pessoas que mantêm esse país funcionando todos os dias. De repente, ele vira o "Bostil" e fazem parecer que o culpado é o povo, como se o problema fosse intrinsicamente o povo brasileiro.
Essa visão de que tudo é culpa da própria população e de que o coletivo teria falhado, ainda mais quando vem dos próprios brasileiros, mostra como o Brasil não é simplesmente um povo único que age sempre em prol de um símbolo.
Darcy Ribeiro, no livro “O Povo Brasileiro” aborda o Brasil como diferentes povos, com culturas diferentes. Pra ele, não existe só Brasil, existem os chamados “Brasis” convivendo todos juntos dentro de um território enorme. No fundo, ainda unidos por um senso de pertencimento.
Mas afinal, o que é esse povo brasileiro tão diferente que ainda se enxerga como uma coisa só?
Esses “Brasis” não são países diferentes, mas grupos diferentes que experimentam o país de uma perspectiva diferente. Para Darcy, existe o Brasil crioulo, marcado por centros urbanos e pela forte presença de cultura afro-brasileira; o Brasil caboclo, que é a mistura entre indígenas e europeus, muito presente na Amazônia e em regiões mais fechadas, difíceis de serem atingidas; o Brasil sertanejo, é o povo que sofre com seca, é resistente e luta pra sobreviver no interior; o Brasil caipira, ligado ao interior do Sudeste e Centro-Oeste, marcado pela vida rural por tradições antigas; e o Brasil sulino, influenciados fortemente pela Europa. São todos marcados por histórias, costumes e desafios diferentes que geram uma divisão muito grande as vezes.
O que a copa faz, no fundo, é unir esses “Brasis” de tempos em tempos sob um mesmo símbolo com um mesmo objetivo, mesmo na pior fase. É como se, apesar de tantas diferenças, tantos problemas e tantas discordâncias, algo ainda fizesse esse conjunto de gente se reconhecer como um único povo.
Mas aí fica a pergunta: Por que essa força some quando queremos melhorar de fato o país ou lutar por condições melhores de trabalho como no caso da escala 6x1?
O problema é que isso volta só quando é conveniente, quando tudo que se precisa fazer é torcer para ganhar o jogo e ficar por alguns dias se segurando em um símbolo forte que é a seleção brasileira no futebol. Depois disso, os “Brasis” se separam e voltam a discutir os mesmos problemas sem conseguir se unir em torno de uma luta.
Talvez o mais perigoso seja acreditar que essa união deixa de existir.
A cada quatro anos, ela simplesmente volta e todo mundo se junta. Os "Brasis" se encontram, compartilham o mesmo símbolo, comemoram as mesmas conquistas e o país para pra ver o futebol rolar. É essa façanha que temos que repetir, parar o país por um mesmo objetivo.
A copa prova que somos capazes de se unir.
A questão é: Por que aceitamos que essa união dure apenas noventa minutos?
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