terça-feira, 6 de outubro de 2026

O fenômeno: Ser mulher na periferia. A cultura periférica que nós consumimos é machista?


    Existe um elefante na sala: a letra do meu funk que estrala no fone de ouvido, é preocupante? 



     Nos últimos anos, a cultura periférica tem finalmente ganhado seu destaque. Principalmente entre os adolescentes, com a parte engraçada de que, até o adolescente mais "boy" vai estar sendo o maior consumidor. Entretanto e todavia, além desse alcance avassalador, é interessante falar da composição de toda essa anatomia. Todos nós sabemos que, além das melodias únicas e a parte legal, a música vem recheada das mais sonoras letras... "peça na cintura 'pra' qualquer b.o que der, mas o que a gente quer mesmo é cachorrada 'cas' mulher" - Amantes da Foda, Mc Rodrigo do CN 
    Veja bem; importante ressaltar que: não há intenção nenhuma de alcançar o conservadorismo quando há a crítica das obras. Elas relatam para a gente, com transparência, as vivências que existem no universo do pessoal que vive o extremo do sistema. Para você entender melhor, olha esse trecho do conto Ana Davenga (Olhos d'água, Conceição Evaristo). 
"O barraco de Davenga era uma espécie de quartel-general, e ele, o chefe. Ali se decidia tudo. No princípio, os companheiros de Davenga olharam Ana com ciúme, cobiça e desconfiança. O homem morava sozinho. Ali armava e confabulava com os outros todas as proezas. E de repente, sem consultar os companheiros, mete ali dentro uma mulher. Pensaram em escolher outro chefe e outro local para quartel-general, mas não tiveram coragem. Depois de certo tempo, Davenga comunicou a todos que aquela mulher ficaria com ele e nada mudaria. Ela era cega, surda e muda no que se referia a assuntos deles."
    Na narrativa acompanhamos a história de Ana, que encontra Davenga em uma roda de samba e recolhe seu nome para si, como uma marca. Davenga é uma representação do chefe de quadrilha no crime da favela e Ana, era sua esposa. Muitas coisas acontecem, mas é legal como o conto é cheio de camadas. Ana era uma das poucas imagens femininas ali, que ou servia de repúdio aos homens, ou como objeto de desejo. Como esposa, ela era devota. Amava seu companheiro. Como esposa de uma grande autoridade, era silenciosa e devia ser alheia de tudo. Mais à frente, Conceição Evaristo também trabalha as questões da perseguição de Davenga e a polícia, ainda pelo ponto de vista de Ana. 
    Vou adicionar mais um pepino nessa salada: Racionais Mc's. De antemão, está estabelecido. Os caras são bons demais. Viraram objeto de estudos em grandes universidades (assim como Olhos D'Água, que esse ano é uma leitura obrigatória de vestibular) e tem uma carreira gigantesca. Aqui, eles trazem, em suas produções, a experiência periférica narrada na perspectiva masculina. Em músicas, como "Estilo Cachorro" e "Em Qual Mentira Vou Acreditar?",  a marca da opressão é óbvia. Edi Rock posteriormente, reconheceu o caráter machista das faixas. 

    E então, o que isso reúne? Todas essas manifestações são os resultados de uma organização social em cadeia. A masculinidade do homem periférico se apoia na cultura da ostentação; que se apoia na maior quantidade de mulheres sexualmente disponíveis e muito carrão. A mulher tem que sobreviver pelas bordas ou pelo centro da expectativa. Ou você briga pelo seu lugar, ou você se torna o prêmio deles. O machismo está enraizado em tudo, e na periferia, ele se mostra mais dilacerador; por que essas pessoas estão todas vivendo no extremo. Hoje em dia, principalmente nesse ano, brasileiras estão brilhando na cultura hip hop: NandaTsunami, Ebony, Tasha & Tracie, Ajulliacosta e muitas outras. 

"Eu tenho que parar de ouvir meu funk?"

    As músicas e os contos são com certeza muito importantes. Consumir essa cultura não é o problema; o problema é não ter criticidade e responsabilidade. O machismo está enraizado nas manifestações, mas tem perdido espaço e cedido para mulheres que brilham. Consuma a cultura das ruas, mas aprecie o respeito; o respeito pelo espaço de qualquer um, a sua dignidade como pessoa nesse mundão e fazer muito barulho aos artistas que estão propondo a nova poesia, a poesia sem caô!

sábado, 26 de setembro de 2026

Como você se imagina daqui a 10 anos? E o que a filosofia oriental nos ensina sobre isso

Como você se imagina daqui a 10 anos?

É uma pergunta meio absurda e talvez muitos não tenham nem ideia do que responder. Dez anos atrás éramos outras pessoas, sem muita ideia de onde estaríamos no futuro. Talvez você fosse só uma criança assistindo desenho, brincando com alguma coisa que hoje nem lembra mais ou, sei lá, assistindo Bom Dia e Cia, provavelmente não se importava muito em como você estaria depois de uma década. Mesmo assim, hoje é algo que já não parece tão distante, é possível se imaginar trabalhando com alguma coisa que gosta, morando em outro lugar, viajando ou tendo uma casa própria. E repare que as primeiras coisas que vem à cabeça na maioria das vezes não soam como algo muito grandioso.

Poucas são as pessoas que se imaginam discursando para milhões, em algo extremamente grandioso ou tendo uma vida agitada e cheia de coisas? Será que isso faz de alguém menos ambicioso? Tenho minhas dúvidas.

Se pararmos para pensar no que a maioria das pessoas deseja, para além de todas as grandes conquistas, existe sempre aquela vontade de ter uma casa própria, um lugar tranquilo para ficar sozinho ou acompanhado, uma vida tranquila o suficiente para poder viver os momentos sem muita ansiedade. Como se a felicidade estivesse muito mais no viver em si, sem estresse, com boas lembranças, do que na conquista de grandes coisas. Coisas que,  perto do que a internet as vezes vende, soam simples demais.

Acontece que vivemos em uma sociedade que aprendeu a odiar o comum. Desde sempre o que fica na cabeça é que devemos ter uma ambição gigantesca, sempre algo grande, como se só isso fosse fazer você se "tornar alguém". Se você  imaginar um futuro com uma rotina simples, ou não se pressionar a ser uma pessoa especial, já  começa a bater aquela sensação de que vai passar batido, que só ser feliz não é o suficiente.

Mas esse necessidade constante de que a vida precisa ser grandiosa, tudo precisa ser perfeito, tudo precisa dar certo é uma invenção bem atual. Se pararmos para olhar um pouco para a filosofia oriental, a visão do futuro pode ir para um lado bem mais leve.

No Taoísmo existe um conceito chamado de Wu Wei,  podemos chamá-lo aqui de "ação sem esforço". A ideia do Lao Tzu, um dos principais nomes dessa filosofia, não era para ninguém ficar de braços cruzados, atrofiando na cama, óbvio, mas sobre seguir o ritmo da vida, do crescimento, sem se preocupar em fazer coisas extremamente grandiosas e significativas. A vida é como um rio, algumas pessoas se pressionam a fazer grandes coisas, na esperança de deixar essa corrente mais significativa, Lao Tzu propõe algo mais simples.  E se só seguíssemos a correnteza? Por que o futuro não pode ser só uma carreira simples que te agrade, com pessoas que você gosta?

O budismo vai numa linha muito parecida, ele fala muito do desapego. Mas você não precisa virar buda nem meditar por anos para entender isso. Ele aborda  muito sobre abandonar os extremos, não precisa de grandes luxo, grandes feitos. 

O próprio Buda é o melhor exemplo disso, e do jeito mais irônico possível. O cara era um príncipe herdeiro que tinha absolutamente tudo, festas, dinheiro, status , até que surtou, meteu o pé do palácio e decidiu ir para o extremo oposto: passou anos sem comer quase nada, morando no mato, tentando virar uma espécie de santo. Resumo da ópera? Ele quase morreu de fome para descobrir o óbvio: que ficar mimado num palácio não é a coisa mais legal  do mundo, mas passar fome na floresta também é horrível. A sabedoria dele veio, de verdade, quando ele escolheu o caminho do meio, a simplicidade.


Depois de dar uma olhada nessas duas filosofas, percebemos que a  felicidade não está necessariamente em uma grande conquista. A felicidade depende do ato de viver, que é feito quase 100% do tempo de momentos comuns. 

Então, se ao pensar em como você se imagina daqui a dez anos a resposta for algo simples, não se sinta mal. Você não precisa impressionar o mundo ou provar algo para alguém para que seu futuro valha a pena.

sábado, 5 de setembro de 2026

Sua região tem arte. E você, tá olhando? (Parte 1)

Conta para mim: Nesse último ENEM, você usou algum desenho animado de repertório para a sua redação, não foi? 

Nos últimos anos, tem se popularizado bastante fugir um pouco dos livros dos velhotes intelectuais para usar repertórios mais atuais, que fazem parte da vida dos vestibulandos. É uma prática que, com certeza, é muito interessante! Facilita nossos estudos e também, ajuda a olhar criticamente até as coisas mais rotineiras. 

Seguindo nessa linha, de olhar atentamente para cada cantinho do cotidiano, por que não consumir da arte local, apoiando as mentes criativas da nossa região, ao mesmo tempo que você garante sua vaga na facul? Te trago aqui, várias obras super interessantes para você se antenar e procurar mais manifestações desses artistas. Segue o fio: 

Danças urbanas 

fotos por Isabelli Alves 

    Você quer expressão e muita emoção? Seu pedido foi entregue. Essas fotos registraram diferentes apresentações em diferentes lugares: A primeira, é uma dançarina com menos de 12 anos em um solo de dança contemporânea, em Indaiatuba. Já as duas que seguem, são apresentações montadas do zero pelo Coletivo Corpo, de dançarinos de Salto e Itu. O grupo já levou sua arte para o FIH2, a maior competição de danças urbanas do país. A segunda imagem, é um momento da última produção do coletivo: Anátema, sobre uma bruxa que depois de queimada pela perseguição, ressuscita com uma grande maldição. Vale a pena conferir.

Danças Clássicas 

 

fotos por @m.felixx__   @011davizn_

    Do lado contrário de Anátema, nós temos artes mais eruditas. Essa imagem é um registro de dois dançarinos de ballet clássico, que estudam no Balled Studio de Dança aqui em Salto, e estavam representando a cidade em uma competição na capital! Pegaram estrada, e foram parar no Pas de Festival (diga-se por passagem, uma competição internacional tá?)

Artes Visíveis 

fotos por Ana Lara
    Essas são obras do Museu Asas de um Sonho, em Itu, organizadas pelo FAMA Museu. O foco do museu é valorizar a história da aeronáutica do mundo, mas também trazer um olhar para a arte contemporânea. A tela a direita, utiliza de um expressionismo figurativo para retratar figuras antropomórficas em interação. A tela a esquerda chega a utilizar argila e terra, além de tinta! Agora, acho que a interpretação fica por sua conta. 

A sua região tem arte. E você, ta olhando? (Parte 2)

 Artes cênicas 

fotos por Lucas Oliveira Silva 
    Além do drama, tem risada. Essas são apresentações que foram todas feitas aqui na cidade de Salto. A primeira e a terceira imagens, capturam peças organizadas pela escola CAEL. Uma, chama-se "Arlequim: o chefe de dois amos" e a outra "A alma boa de Set Suan". 
    Mas o melhor a gente deixa por último né? A segunda foto foi tirada de uma peça 100% de autoria do nosso grupo de teatro do IFSP em 2025. A adaptação do livro Capitães de Areia para uma peça dramática foi feita por alunos do campus, que deram vida a trama com toda impetuosidade.

Artes Plásticas 
fotos por Ana Lara 
    Para finalizar, trago dose dupla. Essas obras também estão expostas pelo FAMA Museu, em Itu. A primeira obra é feita pelo artista Henrique Oliveira, que é conhecido por misturar arquitetura, matéria orgânica e formas escultóricas. Nessa em específico, foi usado bambu e muita técnica de arquiteto para manter tudo de pé. Matéria orgânica também está presente na próxima obra, de Marcos Amaro (fundador do museu). Ele utiliza ossadas bovinas enfileiradas, para remeter ao clico da vida, à memória e à ruína. 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Aos 17, ainda temos tempo: vestibular e medo de escolher errado (Parte 2)

Só que saber que podemos recomeçar não faz o medo sumir. Ou pelo menos ninguém na hora do vestibular vai pensar nisso. Essa liberdade de escolher já não ajuda muito nessa situação, se você não escolher direito, você erra. Os meses de estudo, meses de tanto rachar a cabeça escolhendo o que cursar parecem servir também como mais motivo para a ansiedade atacar. Porque agora existe uma prova entre você e o próximo passo da sua vida.

Você começa a contar quantas questões precisa acertar, compara suas notas com as dos outros, olha para tudo que ainda não conseguiu estudar. Se esquece de todos os simulados, cada matéria que você não lembra aumenta o desespero. De repente, você passa mais tempo da prova pensando no que poderia ter feito, do que nos seus estudos.

E é no meio do desespero da prova que você, ironicamente, não pode pensar no que vai ser do futuro. Naquele momento, não adianta tentar descobrir se você vai passar, se escolheu o curso certo ou se o que você colocou no gabarito tá certo ou errado. A prova está ali, na sua frente, o futuro pode esperar. 

É claro que não passar pode ser frustrante. Sensação de tempo perdido. Mas ninguém sabe o que vai ser do resultado. E se não passar? Do que adiantaria ficar se martelando? 

Talvez a gente coloque responsabilidade demais em uma única prova. Como se aquele resultado fosse ser definitivo. Mas vestibular é uma prova, não uma previsão do resto da sua vida. Você pode passar, não passar, tentar de novo, mudar de curso ou, quem sabe, virar padeiro.

Então estude. Faça o seu melhor. Leve o vestibular a sério, mas não fique se martelando para ter uma resposta hoje, de como será amanhã. A maioria dos vestibulares começa em 2 meses, é o suficiente para revisar o necessário, parar, respirar e soltar esse peso de decidir seu futuro hoje.

Aos 17, ainda temos tempo. Talvez lembrar disso não faça o vestibular dar menos medo. Mas pode ajudar a lembrar que, por mais importante que ele seja, ainda é melhor fazer o possível agora e não se perder em possibilidades que não sabemos se realmente acontecerão.


Aos 17, ainda temos tempo: vestibular e medo de escolher errado (Parte 1)



Durante a Segunda Guerra Mundial, um aluno jovem procurou seu professor em busca de um conselho. Ele precisava tomar uma decisão que parecia impossível: ficar em casa para cuidar de sua mãe ou partir para longe lutar contra os alemães em um combate sangrento e vingar o nome de seu pai e irmão que morreram servindo. Qualquer decisão parecia como enfiar uma faca de dois gumes no peito. Se ele ficasse com a mãe, aquela vontade ardente que tinha de combater talvez o consumisse para sempre, se servisse, nada iria garantir que ele não passaria anos assinando papéis ou talvez morresse em combate, deixando sua mãe sozinha.  O nome do professor era Jean Paul Sartre e a única resposta que ele pôde dar foi “Você é livre, escolha, ou seja, invente”.

Com 17 anos, felizmente, a nossa situação não exige nenhuma luta sangrenta nem perigosa. Mas toda a sociedade espera que você saiba escolher uma profissão, e mais, que você escolha e passe logo em um vestibular de 180 questões que vai decidir quem você será na vida.

Não basta prestar vestibular, tem que passar logo no terceiro do ensino médio. Não basta passar, ainda fica o medo e a agonia de ter tomado a decisão errada. Essa pressão toda é sufocante para qualquer aluno que busca entrar na faculdade.

Temos que admitir, Sartre tinha um ponto. Pergunte a 1000 pessoas e terá 1000 respostas diferentes. Cada pessoa irá te dizer que tem um caminho melhor, uma profissão mais segura, uma escolha mais realista, menos ingênua. Haverá até aqueles que querem se aproveitar da sua insegurança para vender cursos inúteis como única maneira de dar certo. Seus pais pensam algo, seus professores tem outras ideias e seus amigos outras mais diferentes. Nenhum deles está certo, muito menos errados. E no final das contas, mesmo que você esteja decidindo pelo que ouviu, já está tomando uma decisão. E se não existe decisão errada, será que você deveria se pressionar tanto a ter uma escolha perfeita?

A verdade é que você está condenado a ser livre, como dizia Sartre. Estar aprisionado pela própria liberdade soa bem contraditório, mas o que isso quer dizer é que não podemos fugir da necessidade de escolher, porque até mesmo não escolher é, no fundo, uma decisão que é tomada. Assim como o aluno não poderia ter certeza de nada, tal é o estudante que está incerto sobre sua futura carreira. Quem sabe o que pode acontecer? Nada garante que você vai se arrepender, nem que vai gostar, e nenhuma das duas possibilidades significa que tudo dará errado.



Isso é o que mais dá medo. Tomar uma decisão e querer ter certeza de que tudo vai dar certo. Queremos saber que a profissão escolhida vai nos fazer felizes, que o curso vai ser como imaginamos e que, depois de alguns anos, vamos acertar de primeira. Mas não existe um jeito de saber. O importante é que estando livres a tomar nossas decisões, também estamos livres a recomeçar sempre que quisermos. Tem tempo para errar, para pensar e, para no meio disso tudo, encontrar nas nossas decisões o que nós queremos ser.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

Procura-se: um emprego que não custe minha saúde mental. Seria a Geração Z preguiçosa ou lúcida?

 Se você perguntar para um gorila: "Em qual ano nós estamos?", ele vai te responder "nós estamos ai, cara!". E, na correria do dia a dia, esbarramos com um parente que vai dizer também: "A nova geração não quer saber de nada!". Mas o que está rolando de verdade? O que gorilas e primos podem trazer para nós, jovens céticos? 


Primeiro, vamos as hipóteses: 1. A geração Z é preguiçosa; 2. Millennials e Baby boomers são chatos!; 3. O sistema está em pedacinhos. 

1. A Geração Z é preguiçosa.

Vamos falar a verdade: a Gen Z virou o pior pesadelo dos chefes e autoridades do mercado. Ela tem sido a pioneira em questionar as alas mais tradicionais das empresas, onde o rito de passagem é crucial. Primeiro, você entra como um estagiário e deve estar disposto a tudo, para conquistar seu reconhecimento. Conforme os cargos vão passando, sua autoridade permite que gradualmente, faça como os seus próprios chefes ao mesmo tempo que respeite a linha tênue da submissão (oops! a linha tênue do respeito*). É o famoso "manda quem pode, obedece quem tem juízo". 

Quando os mais jovens entram nesse esquema, a dinâmica está em xeque. Os gestores encaram cada vez mais questionamentos que são vistos como insolência e falta de ética profissional. "Por que preciso fazer isso agora?", "Por que preciso fazer isso dessa maneira?" e a hesitação em cumprir ordens diretas, sem reclamações, resultam em uma reputação péssima para os recém-chegados. Para os de alto escalão, a produção deve ser mais pragmática. Focar no necessário e priorizar a entrega, antes mesmo de contestar. 

2. Millennials e Baby Boomers são chatos!

Se você olhar no espelho retrovisor, voltar umas décadas atrás, vai dar de cara com uma geração que encontrava honra ao trabalhar. A profissão te definia como pessoa, personalidade e emoções. A lógica era linear e quase religiosa: ser contratado, vestir a camisa da empresa, engolir uns sapos e em troca, conquistar estabilidade, uma linda progressão de carreira; e agora você é uma pessoa de bem. 

E no final de contas, onde tudo isso foi parar? 

O tempo passou, as incertezas aumentaram. Para o jovem brasileiro do século XXI, casa própria virou sonho de princesa e a aposentadoria, uma lenda urbana. Entretanto, a cobrança é a mesma dentro do escritório, no meio de tantas propostas e reuniões. Isso quando se consegue uma vaga em escritórios. 

Colocando na balança, o trabalho virou exclusivamente necessidade: perdeu a parcela do conforto que poderia proporcionar, mas ainda faz parte da rotina do homem de maneira central. A Geração Z não podia estar mais perdida!

3. O sistema está em pedacinhos.

Espera ai! Segura essa fita. Será que o problema não é maior do que isso? A verdade nua e crua está, especificamente, no rompimento de um contrato social. Todo o estilo de vida que funcionava para os nossos tios e pais, hoje em dia encontra-se triturado pela mudança no mercado de trabalho. Nem uma epidemia da preguiça, e nem conservadores cafonas. 

Há uma mudança filosófica acerca da sociedade. Não se vive mais para trabalhar, mas procura-se trabalhar para viver. O que está na moda é conseguir ler um bom livro, praticar esportes legais e sair com as pessoas que você ama. Parte disso surge sim, da falta de recompensa material que o emprego te oferece nos dias atuais, com o poder de compra cada vez pior e propostas de empregos complicadas. Fenômenos como a nova "uberização" ou a pejotização forçada (onde você tem as obrigações de um funcionário, mas nenhum direito) são desanimadoras. Trabalhar duro já não garante estabilidade; com sorte, garante o pagamento do aluguel do mês e, com azar, uma receita de tarja preta na gaveta da cabeceira.

No fim das contas, talvez lucidez seja o termo certo para essa nova gente. Eles entendem perfeitamente o que traz a música do Rubel "Mantra", que usa uma fala do Tim Maia (ele mesmo!) e personifica o gorila para mostrar que a competição e a corrida contra o tempo não estão na sua natureza. O importante é o presente que pode ser vivido. Mas ainda assim, valorizar e escutar o que os mais velhos dizem, enriquece nossa forma de ver esse mundo tão maluco. E se os devaneios da existência apertarem mais uma vez, o jeito é respirar fundo e lembrar da sabedoria do nosso querido primata: a gente só 'está ai, cara!'