quarta-feira, 29 de julho de 2026

Procura-se: um emprego que não custe minha saúde mental. Seria a Geração Z preguiçosa ou lúcida?

 Se você perguntar para um gorila: "Em qual ano nós estamos?", ele vai te responder "nós estamos ai, cara!". E, na correria do dia a dia, esbarramos com um parente que vai dizer também: "A nova geração não quer saber de nada!". Mas o que está rolando de verdade? O que gorilas e primos podem trazer para nós, jovens céticos? 


Primeiro, vamos as hipóteses: 1. A geração Z é preguiçosa; 2. Millennials e Baby boomers são chatos!; 3. O sistema está em pedacinhos. 

1. A Geração Z é preguiçosa.

Vamos falar a verdade: a Gen Z virou o pior pesadelo dos chefes e autoridades do mercado. Ela tem sido a pioneira em questionar as alas mais tradicionais das empresas, onde o rito de passagem é crucial. Primeiro, você entra como um estagiário e deve estar disposto a tudo, para conquistar seu reconhecimento. Conforme os cargos vão passando, sua autoridade permite que gradualmente, faça como os seus próprios chefes ao mesmo tempo que respeite a linha tênue da submissão (oops! a linha tênue do respeito*). É o famoso "manda quem pode, obedece quem tem juízo". 

Quando os mais jovens entram nesse esquema, a dinâmica está em xeque. Os gestores encaram cada vez mais questionamentos que são vistos como insolência e falta de ética profissional. "Por que preciso fazer isso agora?", "Por que preciso fazer isso dessa maneira?" e a hesitação em cumprir ordens diretas, sem reclamações, resultam em uma reputação péssima para os recém-chegados. Para os de alto escalão, a produção deve ser mais pragmática. Focar no necessário e priorizar a entrega, antes mesmo de contestar. 

2. Millennials e Baby Boomers são chatos!

Se você olhar no espelho retrovisor, voltar umas décadas atrás, vai dar de cara com uma geração que encontrava honra ao trabalhar. A profissão te definia como pessoa, personalidade e emoções. A lógica era linear e quase religiosa: ser contratado, vestir a camisa da empresa, engolir uns sapos e em troca, conquistar estabilidade, uma linda progressão de carreira; e agora você é uma pessoa de bem. 

E no final de contas, onde tudo isso foi parar? 

O tempo passou, as incertezas aumentaram. Para o jovem brasileiro do século XXI, casa própria virou sonho de princesa e a aposentadoria, uma lenda urbana. Entretanto, a cobrança é a mesma dentro do escritório, no meio de tantas propostas e reuniões. Isso quando se consegue uma vaga em escritórios. 

Colocando na balança, o trabalho virou exclusivamente necessidade: perdeu a parcela do conforto que poderia proporcionar, mas ainda faz parte da rotina do homem de maneira central. A Geração Z não podia estar mais perdida!

3. O sistema está em pedacinhos.

Espera ai! Segura essa fita. Será que o problema não é maior do que isso? A verdade nua e crua está, especificamente, no rompimento de um contrato social. Todo o estilo de vida que funcionava para os nossos tios e pais, hoje em dia encontra-se triturado pela mudança no mercado de trabalho. Nem uma epidemia da preguiça, e nem conservadores cafonas. 

Há uma mudança filosófica acerca da sociedade. Não se vive mais para trabalhar, mas procura-se trabalhar para viver. O que está na moda é conseguir ler um bom livro, praticar esportes legais e sair com as pessoas que você ama. Parte disso surge sim, da falta de recompensa material que o emprego te oferece nos dias atuais, com o poder de compra cada vez pior e propostas de empregos complicadas. Fenômenos como a nova "uberização" ou a pejotização forçada (onde você tem as obrigações de um funcionário, mas nenhum direito) são desanimadoras. Trabalhar duro já não garante estabilidade; com sorte, garante o pagamento do aluguel do mês e, com azar, uma receita de tarja preta na gaveta da cabeceira.

No fim das contas, talvez lucidez seja o termo certo para essa nova gente. Eles entendem perfeitamente o que traz a música do Rubel "Mantra", que usa uma fala do Tim Maia (ele mesmo!) e personifica o gorila para mostrar que a competição e a corrida contra o tempo não estão na sua natureza. O importante é o presente que pode ser vivido. Mas ainda assim, valorizar e escutar o que os mais velhos dizem, enriquece nossa forma de ver esse mundo tão maluco. E se os devaneios da existência apertarem mais uma vez, o jeito é respirar fundo e lembrar da sabedoria do nosso querido primata: a gente só 'está ai, cara!'

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Quando a Copa começa, todo mundo é brasileiro. Para onde vai essa união quando o jogo acaba?

Copa do Mundo chegou e, misteriosamente, o grupo da família que até duas semanas atrás estava brigando por conta de política começou a se encher de figurinha da Seleção. E agora, até a sua vó que usa dentadura vira técnica de futebol enquanto o tio chato do pavê só sabe falar dos velhos tempos de Ronaldo Fenômeno. 

Essa é a Copa do Mundo, o grandioso acontecimento que faz até as pessoas que não gostam de futebol pararem por 90 minutos para ver a seleção jogar, comemoram quando ganham, choram quando perdem, mas, juntos nos dois casos. E é aí que surge a pergunta: por que conseguimos nos reunir para comemorar um gol, mas temos tanta dificuldade de nos unir para resolver os problemas desse país? Para onde vai essa força? Por que todos se separam? 


O que é curioso, é como tanta gente ama a ideia de Brasil, mas nem sempre demonstra o mesmo carinho pelo Brasil real. O Brasil da escola pública, do ônibus lotado, dos artistas, dos trabalhadores e das pessoas que mantêm esse país funcionando todos os dias. De repente, ele vira o "Bostil" e fazem parecer que o culpado é o povo, como se o problema fosse intrinsicamente o povo brasileiro.

Essa visão de que tudo é culpa da própria população e de que o coletivo teria falhado, ainda mais quando vem dos próprios brasileiros, mostra como o Brasil não é simplesmente um povo único que age sempre em prol de um símbolo.

Darcy Ribeiro, no livro “O Povo Brasileiro” aborda o Brasil como diferentes povos, com culturas diferentes. Pra ele, não existe só Brasil, existem os chamados “Brasis” convivendo todos juntos dentro de um território enorme. No fundo, ainda unidos por um senso de pertencimento.


Mas afinal, o que é esse povo brasileiro tão diferente que ainda se enxerga como uma coisa só?

Esses “Brasis” não são países diferentes, mas grupos diferentes que experimentam o país de uma perspectiva diferente. Para Darcy, existe o Brasil crioulo, marcado por centros urbanos e pela forte presença de cultura afro-brasileira; o Brasil caboclo, que é a mistura entre indígenas e europeus, muito presente na Amazônia e em regiões mais fechadas, difíceis de serem atingidas; o Brasil sertanejo, é o povo que sofre com seca, é resistente e luta pra sobreviver no interior; o Brasil caipira, ligado ao interior do Sudeste e Centro-Oeste, marcado pela vida rural por tradições antigas; e o Brasil sulino, influenciados fortemente pela Europa. São todos marcados por histórias, costumes e desafios diferentes que geram uma divisão muito grande as vezes.

O que a copa faz, no fundo, é unir esses “Brasis” de tempos em tempos sob um mesmo símbolo com um mesmo objetivo, mesmo na pior fase.  É como se, apesar de tantas diferenças, tantos problemas e tantas discordâncias, algo ainda fizesse esse conjunto de gente se reconhecer como um único povo. 

Mas aí fica a pergunta: Por que essa força some quando queremos melhorar de fato o país ou lutar por condições melhores de trabalho como no caso da escala 6x1?

O problema é que isso volta só quando é conveniente, quando tudo que se precisa fazer é torcer para ganhar o jogo e ficar por alguns dias se segurando em um símbolo forte que é a seleção brasileira no futebol. Depois disso, os “Brasis” se separam e voltam a discutir os mesmos problemas sem conseguir se unir em torno de uma luta.

Talvez o mais perigoso seja acreditar que essa união deixa de existir.

A cada quatro anos, ela simplesmente volta e todo mundo se junta. Os "Brasis" se encontram, compartilham o mesmo símbolo, comemoram as mesmas conquistas e o país para pra ver o futebol rolar. É essa façanha que temos que repetir, parar o país por um mesmo objetivo.

A copa prova que somos capazes de se unir.

A questão é: Por que aceitamos que essa união dure apenas noventa minutos?