terça-feira, 25 de agosto de 2026

Aos 17, ainda temos tempo: vestibular e medo de escolher errado (Parte 2)

Só que saber que podemos recomeçar não faz o medo sumir. Ou pelo menos ninguém na hora do vestibular vai pensar nisso. Essa liberdade de escolher já não ajuda muito nessa situação, se você não escolher direito, você erra. Os meses de estudo, meses de tanto rachar a cabeça escolhendo o que cursar parecem servir também como mais motivo para a ansiedade atacar. Porque agora existe uma prova entre você e o próximo passo da sua vida.

Você começa a contar quantas questões precisa acertar, compara suas notas com as dos outros, olha para tudo que ainda não conseguiu estudar. Se esquece de todos os simulados, cada matéria que você não lembra aumenta o desespero. De repente, você passa mais tempo da prova pensando no que poderia ter feito, do que nos seus estudos.

E é no meio do desespero da prova que você, ironicamente, não pode pensar no que vai ser do futuro. Naquele momento, não adianta tentar descobrir se você vai passar, se escolheu o curso certo ou se o que você colocou no gabarito tá certo ou errado. A prova está ali, na sua frente, o futuro pode esperar. 

É claro que não passar pode ser frustrante. Sensação de tempo perdido. Mas ninguém sabe o que vai ser do resultado. E se não passar? Do que adiantaria ficar se martelando? 

Talvez a gente coloque responsabilidade demais em uma única prova. Como se aquele resultado fosse ser definitivo. Mas vestibular é uma prova, não uma previsão do resto da sua vida. Você pode passar, não passar, tentar de novo, mudar de curso ou, quem sabe, virar padeiro.

Então estude. Faça o seu melhor. Leve o vestibular a sério, mas não fique se martelando para ter uma resposta hoje, de como será amanhã. A maioria dos vestibulares começa em 2 meses, é o suficiente para revisar o necessário, parar, respirar e soltar esse peso de decidir seu futuro hoje.

Aos 17, ainda temos tempo. Talvez lembrar disso não faça o vestibular dar menos medo. Mas pode ajudar a lembrar que, por mais importante que ele seja, ainda é melhor fazer o possível agora e não se perder em possibilidades que não sabemos se realmente acontecerão.


Aos 17, ainda temos tempo: vestibular e medo de escolher errado (Parte 1)



Durante a Segunda Guerra Mundial, um aluno jovem procurou seu professor em busca de um conselho. Ele precisava tomar uma decisão que parecia impossível: ficar em casa para cuidar de sua mãe ou partir para longe lutar contra os alemães em um combate sangrento e vingar o nome de seu pai e irmão que morreram servindo. Qualquer decisão parecia como enfiar uma faca de dois gumes no peito. Se ele ficasse com a mãe, aquela vontade ardente que tinha de combater talvez o consumisse para sempre, se servisse, nada iria garantir que ele não passaria anos assinando papéis ou talvez morresse em combate, deixando sua mãe sozinha.  O nome do professor era Jean Paul Sartre e a única resposta que ele pôde dar foi “Você é livre, escolha, ou seja, invente”.

Com 17 anos, felizmente, a nossa situação não exige nenhuma luta sangrenta nem perigosa. Mas toda a sociedade espera que você saiba escolher uma profissão, e mais, que você escolha e passe logo em um vestibular de 180 questões que vai decidir quem você será na vida.

Não basta prestar vestibular, tem que passar logo no terceiro do ensino médio. Não basta passar, ainda fica o medo e a agonia de ter tomado a decisão errada. Essa pressão toda é sufocante para qualquer aluno que busca entrar na faculdade.

Temos que admitir, Sartre tinha um ponto. Pergunte a 1000 pessoas e terá 1000 respostas diferentes. Cada pessoa irá te dizer que tem um caminho melhor, uma profissão mais segura, uma escolha mais realista, menos ingênua. Haverá até aqueles que querem se aproveitar da sua insegurança para vender cursos inúteis como única maneira de dar certo. Seus pais pensam algo, seus professores tem outras ideias e seus amigos outras mais diferentes. Nenhum deles está certo, muito menos errados. E no final das contas, mesmo que você esteja decidindo pelo que ouviu, já está tomando uma decisão. E se não existe decisão errada, será que você deveria se pressionar tanto a ter uma escolha perfeita?

A verdade é que você está condenado a ser livre, como dizia Sartre. Estar aprisionado pela própria liberdade soa bem contraditório, mas o que isso quer dizer é que não podemos fugir da necessidade de escolher, porque até mesmo não escolher é, no fundo, uma decisão que é tomada. Assim como o aluno não poderia ter certeza de nada, tal é o estudante que está incerto sobre sua futura carreira. Quem sabe o que pode acontecer? Nada garante que você vai se arrepender, nem que vai gostar, e nenhuma das duas possibilidades significa que tudo dará errado.



Isso é o que mais dá medo. Tomar uma decisão e querer ter certeza de que tudo vai dar certo. Queremos saber que a profissão escolhida vai nos fazer felizes, que o curso vai ser como imaginamos e que, depois de alguns anos, vamos acertar de primeira. Mas não existe um jeito de saber. O importante é que estando livres a tomar nossas decisões, também estamos livres a recomeçar sempre que quisermos. Tem tempo para errar, para pensar e, para no meio disso tudo, encontrar nas nossas decisões o que nós queremos ser.