quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Israel, Palestina e os personagens secundários no conflito – Parte 1

A ponta do Iceberg do atual conflito armado mostra “Israel x Palestina”; mas quanto mais enraizado, maior é a quantidade de agentes envolvidos: entenda do início para a atualidade.

À esquerda, Benjamin Netanyahu - Primeiro-ministro de Israel -, e à direita, Mahmoud Abbas, Presidente do Estado da Palestina.

    Israel x Palestina: 100 anos, 1 texto

    Um dos conflitos mais debatidos, atualmente, remonta a um cenário de pós-guerra, na década de 40, e possui como pilares questões, principalmente, geopolíticas e religiosas. Para se entender o que se tem hoje, faz-se necessário retornar a um passado não tão distante em termos históricos, mas longo o suficiente para afetar a vida de toda uma população. Em 1917, o Império Britânico emite a Declaração de Balfour, conferindo à população judaica a permanência na, até então, região da Palestina, uma vez que “não ferisse os direitos civis das populações não judaicas que ali viviam”.
    Os judeus eram vistos como uma população sem pátria pelo Império Britânico, que buscava garantir apoio aos Aliados durante a Grande Guerra. Porém, tal comunicado soava como uma traição aos palestinos que já constituíam a região – entende-se como palestinos a população árabe, que apresenta, em grande parte, a religião muçulmana. Essa região, por sua vez, possui suma importância religiosa tanto para muçulmanos, quanto para os judeus. A partir de 1920, com a vitória do Império Britânico, o Mandato Britânico da Palestina entra em ação e acontece uma reorganização de palestinos e judeus, como prometido pela Declaração de Balfour. Legalmente, o documento previa a divisão de um mesmo território para dois estados: um Estado para o povo judeu, e outro, para os palestinos – que não haviam um Estado formalmente formado. 

Conflitos: o barril de pólvora explode

O primeiro impasse nessa divisão territorial se dá, entretanto, com a partilha da cidade de Jerusalém: nada havia escrito sobre o pertencimento da cidade de destaque religioso. Com a Conferência da ONU, em 1947, e sua consequente aprovação para criação dos dois Estados propostos pelo Mandato, nasce o Estado de Israel. Porém, os palestinos não aceitaram o acordo, alegando injustiça nos termos de divisão territorial: teriam ficado com piores terras e localização. Como resposta a esse desacordo, tem-se a primeira Guerra árabe-israelense, no mesmo ano, opondo o Estado recém formado à Liga Árabe. Como consequência, assim como de outras guerras consecutivas na região – como a Guerra dos Seis Dias, em 1967 - , teve-se um aumento territorial israelense e uma expulsão do povo palestino de suas terras conquistadas: gerando o que se denominou de Questão Palestina
        É ainda em 1993, com o agravamento desses assentamentos israelenses de maneira ilegal, que acontece um acordo para a retirada dos judeus sionistas que lá se fixaram. Com essa saída gradual, a proposta era estabelecer o Estado da Palestina de maneira legítima. Esse acordo não foi colocado em prática em decorrência do movimento Sionista extremista que constitui parte do Estado de Israel, sendo esse, terminantemente contra a criação do Estado da Palestina. 
        Geopoliticamente, no atual Estado de Israel, palestinos estão concentrados nas regiões da Faixa de Gaza e Cisjordânia, ambos fazendo fronteira com o Estado de Israel; com o Egito e a Jordânia, respectivamente. É na Faixa de Gaza que se encontram os Hamas, movimento islamista palestino que tem sido tão comentado recentemente.
        Assim, segue até os dia em que esse artigo vos é escrito, uma sequência de conflitos armados entre o Estado de Israel e Palestinos: e os Estados Unidos, e o Egito, e o Irã e diversos outros grupos que se desmembraram a partir do início desses confrontos - há 100 anos atrás. Por isso, faz-se necessário o entendimento de suas atuações e influências nesse processo, em que cada único agente é capaz de alterar a realidade e vida de milhares de pessoas: como tem sido feito há um século.  

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

E por falar em saudade, onde anda você, MPB?

A loira favorita do capitalismo voltou para o mercado cinematográfico – e econômico – e fez história, com ou sem Grammy!

    Seja durante as águas de março ou de janeiro a janeiro, não mais se vê a MPB nas esquinas, nos bares ou naquela mesa. Será que apenas nos resta ouvir as canções que esse movimento nos fez? Como nada se cria e tudo se transforma, é preciso entender o que foi o movimento da MPB, já que esse não se resume apenas a um estilo de música. Assim, cabe a conclusão dos apreciadores de músicas – e, claro, seu público-alvo: brasileiros -, identificar se essa corrente repercute até os dias atuais ou se, até mesmo, transformou-se em um lirismo equivalente aos dias atuais. 


    A bossa nova andou para que a MPB pudesse correr

    A MPB – ou melhor, MMPB, sigla que designa a Moderna Música Popular Brasileira – teve seu nascimento na segunda metade da década de 60. Sendo essa a filha rebelde de sua mãe, a Bossa Nova, é preciso entender, também, o momento esse outro movimento apresenta seu auge. A Bossa Nova apresentou seu pico de maior dispersão na década de 50, e se preocupava, principalmente, com a exposição da estética musical. Para isso, teve seu diferencial com a manutenção dos elementos musicais já presentes no samba: o objetivo era sintetizar as linhas rítmicas da batucada e colocá-las no violão. Essa mudança acarretava a preservação do balanço do samba com uma concomitante suavidade. Quanto ao canto, os artistas buscavam o afastamento da Era Radiofônica para uma aproximação às inovações tecnológicas trazidas na época que beneficiavam os mais diversos musicistas com uma maior qualidade sonora.     

    Porém, é com o maior engajamento dos jovens – principalmente estudantes – e a eclosão da ditadura militar, em 1964, que o estilo da Bossa Nova não é mais tão bem aceito. Apesar do prosseguimento com os padrões estéticos sonoros criados pelo movimento anterior, a MPB surge como uma forma de expressão para contrariar o sistema político e social imposto. Para isso, rompem com o até então vigente lirismo romântico e apresentam a adoção de temas políticas, além de retomarem elementos de músicas tradicionais populares – como o samba de morro, baião, coco, moda de viola e o frevo. Para o auxílio desse processo, os constituintes dessa mobilização contam com a revolução dos aparelhos televisores: através deles, promoviam os Festivais da Canção, que revelavam artistas e impulsionavam o reconhecimento do movimento. Nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Elis Regina e Gilberto Gil compuseram o evento musical. 


    MPB: Muito pouco barulho?

    É com a história de seu surgimento e consolidação que se entende o que de fato é a MPB – e espero que neste ponto, caro leitor, tenha concluído emancipadamente que não é toda e qualquer música brasileira que fica popular. Dessa maneira, em uma perspectiva racional que leva em consideração aspectos principais como lirismo, sonoridade e contexto sócio-histórico, é impossível ter-se, atualmente, a mesma MPB dos anos 60, 70 ou até mesmo de 8 anos atrás (a Xepa já fez uma edição sobre a nova geração da MPB antes!). Isso porque, diferentemente de outros gêneros musicais como rock, rap ou pop, que possuem características comuns capazes de se configurarem como tais, a MPB é, também, um movimento social. Nem mesmo a Nova MPB, designada no final dos 90 e começo dos anos 2000, é considerada “nova” para o momento presente. 

    Entretanto, essa conclusão não deve ser sinônimo de melancolia – por mais que músicos a adorem: para a alegria de Chico Buarque, não é fatal que o faz de conta termine assim. Já que a própria MPB apresenta como característica formativa a transformação, essa permissão artística de mutação e a constante ampliação de sua estética – como a adesão do Tropicalismo, por exemplo - é responsável, também, por mantê-la viva. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

“Barbie” (2023): além de um clássico do cinema, um marco histórico

A loira favorita do capitalismo voltou para o mercado cinematográfico – e econômico – e fez história, com ou sem Grammy! 

    O sucesso do brinquedo Barbie pode ser recente, mas, com certeza, não é novo. Tratando-se de um produto que, apesar de momentos de crise, não se desgastou com o tempo ao nível do esquecimento, não se poderia esperar uma repercussão tão divergente. Mais do que isso: não haveria possibilidade do filme “Barbie” (2023), dirigido por Greta Gerwig, não ser sucesso de bilheteria. Isso porque a obra é muito mais extensa do que a 1 hora e 54 minutos apresentada na telinha. Durante esse artigo, serão expostos e debatidos alguns pilares que sustentam o fenômeno desse filme – sem ao menos considerar o seu conteúdo ou quantidade de críticas positivas e negativas.



    Barbie Cientista: uma viagem no tempo 

    Em um contexto pós Segunda Guerra Mundial, indústrias bélicas precisavam mudar seu segmento de produção: mais do que isso, precisavam reutilizar toda a sucata restante e evitar o desperdício material e de capital. Nesse mesmo momento, fazia-se presente uma política de incentivo à natalidade norte-americana, equilibrando a balança de déficit, consequente da Grande Guerra. Assim, desenvolve-se nos Estados Unidos, fábricas de brinquedo em massa. 

    É neste ponto, em 1945, que o casal Ruth e Elliot Handler e o americano Harold Matson apresentam a indústria de brinquedos “Mattel”. A princípio, com os materiais que lhes eram disponíveis, criavam móveis para casas de bonecas. Porém, conforme crescia a primogênita do casal, Barbara Handler, a então administradora da empresa, Ruth – fato revolucionário para uma época em que a silhueta feminina não era bem vista como figura de autoridade -, percebeu que sua filha gostava de atribuir características às suas bonecas: um dia ela era presidente, e no outro, era bailarina. Com isso, no ano de 1959, foi apresentada a primeira “Barbie”, na Feira Americana de Brinquedo, em Nova York: o inovador produto se assimilava à boneca Bild Lilli - a qual a Mattel comprara os direitos autorais -  e contava com o diferencial das contrastantes personalidades propostas pela pequena Barbara. 

    Símbolo do movimento feminista ou causador de seu atraso, a Barbie retomava todos os conceitos difundidos pelo “American Way of Life” e padrões estadunidenses. Em uma conjuntura de necessidade de pertencimento nacional, temor pela disseminação do socialismo russo e economia vulnerável, o sucesso imediato do brinquedo não se apresentou como uma surpresa para os empresários. 


    Barbie 'Marketeira': visionária ou capitalista, um mesmo resultado

    Após sua grande estreia, a boneca não apenas manteve sua prosperidade, como também a elevou exponencialmente. A empresa utilizou de filmes, músicas, séries, itens personalizados dos mais diversos segmentos, roupas – e quaisquer outros produtos que pudessem ser materializados – para divulgar, continuamente, o brinquedo. Sendo assim, para seu grande retorno após um hiato de inovações, não haveria de ser diferente com um filme gerado a partir de tanto investimento. 

    Assim sendo, o marketing por trás da obra cinematográfica ultrapassou as barreiras de localidade e segmento cinematográfico para adentrar-se no mundo cotidiano. Nos mais diversos lugares do mundo, cafeterias e empresas alimentícias beneficiaram-se do momento para a inauguração de combos “Barbie” e novidades no cardápio; até mesmo em cidades interiores – incluindo de onde esta colunista vos escreve -, vitrines de lojas mergulharam no universo cor de rosa e , subitamente, em qualquer ponto onde os olhos pudessem repousar, havia uma referência ao filme. Até mesmo a patrimonial Linha 4 Amarela do metrô de São Paulo recebeu uma repaginada estética e entrou na moda. Para além das redes sociais, a existência do filme “Barbie” não só se tornou de conhecimento de milhões de indivíduos, como também fez parte de suas rotinas. 

    Nesse viés, atingindo a maior quantidade de pessoas possível, o longa-metragem apresenta a versatilidade de conversar com as mais diferentes gerações e gêneros – e, consequentemente, conta com a presença de pautas atemporais e pertencentes a um novo momento. Existiram aqueles que não tiveram contato com a boneca em uma primeira infância, mas a viram fazer parte da vida de outras crianças; aqueles que relembram a nostalgia de sua própria infância e até mesmo aqueles que estão passando por esse momento durante a estreia. Seja quem, quando e aonde for, o filme promete reservar um lugar especial de identificação para quem se propor assisti-lo. 


    Fale bem ou fale mal, mas fale de mim!

    E com tanta gente presenciando a obra, o que se tem de cor de rosa, têm de críticas ao filme: todo mundo tem algo a dizer sobre “Barbie”. Desde rostos emocionados ao som de “What I Was Made For”, à fúria daqueles que não se sentiram tão representados pela boneca (ou boneco), as críticas quanto ao filme podem ser encontradas nos mais diferentes veículos; e, talvez como tudo no cinema, passeiam pelas mais extremas opiniões – mas com proporções maiores do que grande parte das obras. Isso porque “Barbie” conta com temáticas dignas de discussões e não se satisfaz no estabelecimento de um meio termo: apresenta um posicionamento a respeito daquilo que se propõem a retratar e o mantém até seu desenlace. Em uma grande ironia, a película desvia do padrão Hollywoodiano de formulação de roteiro e surpreende a todos – negativamente ou positivamente. 

    Com todo esse contexto concebido para receber “Barbie”, o filme não se sustentava com uma resposta midiática positiva para marcar presença – assim, todas as opiniões, de internautas ou especialistas do ramo, atuam como contínuos pilares para a manutenção de seu sucesso. Considerando todas ou nenhuma opinião, o filme “Barbie” (2023) é um marco global e contenta-se com fatos para comprovar isso.

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Moda Old Money: meu bilionário favorito!! - Parte 2

Fenômeno Old Money: muito mais que as polos brancas e calças de alfaiataria. 



Mas se é algo tão problemático, como se tornou um trend?

Incialmente, é importante ter noção que a internet possui algoritmos, esses que muitas vezes ditam o que será moda ou não. Entretanto, poderíamos supor que talvez existam mais fatores, um deles sendo a visibilidade que essas pessoas, ricas, possuem para compartilhar seus estilos de vida ao público. Ainda sim, não é o suficiente para tantas pessoas se tornarem tão fanáticas rapidamente pelo estilo. Crises econômicas, políticas ou sociais, podem mudar drasticamente os costumes da população, em escalas mundiais. Com a pandemia do Covid-19, em 2020, foi perceptível a presença de milhares de pessoas imersas em redes sociais, tanto como produtoras de conteúdo, quanto apenas espectadores, logo, a exposição a qualquer conteúdo que estivesse em alta teria um maior alcance, e em um momento tão delicado como esse, que resultou em diversos problemas em macro e micro esferas, a necessidade de fuga da realidade se fez, como consequência, tivemos seu grande auge. 


Então, por que esse estilo continuou, mesmo após seu grande boom?

A resposta ainda é praticamente a mesma, crises. Nota-se que o Old Money tem diferenças a outros estilos que surgem e morrem diariamente nas redes, ele fala muito mais sobre estilo de vida e costumes quando comparados a outros, isso demonstra uma sociedade que está doente, constantemente em busca de uma realidade alterna, longe dos atuais problemas. O luxo, o prestígio, a fartura e diversos outros aspectos são dedicados apenas a porções minutas da população mundial, o desejo por essas vidas privilegiadas é presente na vida de milhares de pessoas, que sofrem com as frequentes crises sociais, econômicas e políticas, cada vez mais desestabilizadas. Imaginar que é um deles, que senta em suas mesas, em seus palácios, com suas roupas de grifes, por exemplo, pode ser um alívio momentâneo da dura realidade enfrentada diariamente.


Considerações finais...

Usar essas roupas não é um problema, almejar é só um sintoma. Torna-se um verdadeiro male quando esses estilos de vida (não se apegando necessariamente ao Old Money, mas na mesma vertente) são normalizados, junto disso, sua ideologia dominante, pois começa-se a pensar que a vida ideal das heranças é alcançável, então, consequentemente, esse pensamento acaba infectando outras esferas, principalmente a política, na qual o indivíduo irá privilegiar muito mais as decisões que beneficiem esses grupos, pensando que um dia poderá ser como eles. Uma mera peça de vestuário não pode oferecer a riqueza dessas famílias que acumulam riqueza, muitas vezes, desde a revolução industrial, com exploração de milhares de operários ao longo dos anos. Mesmo que tenha a riqueza, não terá o prestígio que seus nomes carregam, mesmo que sejam nas melhores mesas e os melhores vinhos, não será um integrante de seus clubes de luxo. A eles as cartas foram dadas a anos, a nós, "o ódio ou compaixão".


quarta-feira, 21 de junho de 2023

O que cupidos e filósofos têm em comum? - Parte 2

Dia dos Namorados, relações líquidas e o capitalismo da pós modernidade globalizada: a cultura pop e a fórmula mágica do casamento.




    Calcule seu felicitômetro

     O que se esperar de uma sociedade em que tudo é programado para não durar? Talvez para Heráclito, a base da vida seja como o correr das águas de um rio: apenas tudo deva mudar constantemente. Porém, para o filósofo polonês Zygumnt Bauman, pode-se categorizar essa sensação com algumas expressões: sociedade e amor líquidos. Quando se trata do nicho das redes sociais e cultura de descarte em massa, entende-se que a ideia central do escritor se fundamenta em um amor “que escorre por entre os dedos”: consequência de relações superficiais que proporcionam laços descartáveis. 

     Assim, no contexto de uma sociedade pós modernidade globalizada, existe uma busca inconsciente pela gratificação imediata e validação pessoal. Essa felicidade líquida, portanto, deve ser atestada pelos outros – sendo esse, portanto, um dos principais defeitos encontrados e abordados por Bauman. Mas se o posicionamento proposto se assemelha a uma crítica ao amor, existe uma lacuna por entre o espaçamento das palavras: justamente por ser uma necessidade fundamental do ser humano, deve-se haver mais discussões sobre o tema fora da utopia proposta pelo entretenimento de massa. 


    Madame Bovary e o “como eu quero” do Kid Abelha

     O termo “Bovarismo” é de teor psicológico utilizado para designar pessoas que não se satisfazem com a realidade em que estão inseridos ou coisas que possuem, constantemente idealizando e comparando com outras naturezas – situação que se adapta, também, a relacionamentos. O termo foi inspirado pela célebre personagem Emma Bovary, que entendia como seu conceito de amor, tudo aquilo que absorvia dos livros de romance que lia quando adolescente: um amor avassalador, inconstante e, acima de tudo, fictício – afinal, sua função comercial é entreter o leito e se vender a partir disso. Já era de se esperar que, ao comprometer-se em um relacionamento, Bovary cai na rotina, assim como sua imaginação e expectativas.

     E se “Madame Bovary”, de 1856, expõe essa problemática como característica pertinente ao ser humano, entende-se que a raiz do problema esconde-se muito além da nossa realidade. Dessa maneira, não se pode culpar o momento social em que estamos inseridos pelo modo que nos relacionamos; ao mesmo tempo, não é possível escapar dele, cabendo a nós, imponentemente, entendê-lo e adequar nossas expectativas e idealizações aquilo que nos é ofertado – não aquilo que é vendido como fórmula mágica e exigência para a felicidade.  


 Cultura pop, redes sociais e nossos coachs de relacionamento

     Retornando, entretanto, ao século XXI, a contemporaneidade se depara com as redes sociais cotidianamente – negar, pelo menos uma parcela mínima de contato rotineiro, é inverossímil. No quesito relacionamento, tem-se a questão de comparação com outros casais, principalmente nos veículos Instagram e TikTok: quando um grande gesto viraliza em um desses meios, é comum por parte dos espectadores colocá-los em um patamar de referência a ser seguido; como por exemplo, a constantemente repetida frase “se [determinado casal] terminar, não acredito mais no amor”. O problema se dá quando esses comentários deixam de ser simples interações para tornarem-se crenças e ações concretas.

     Em um episódio da recém estreada temporada da série “Black Mirror”, uma empresa de streaming opta por realizar séries baseadas no cotidiano de cada indivíduo, a partir de registros captados pelos celulares individuais de cada consumidor. Entretanto, ao decidirem o viés que a obra apresentaria, abordaram uma visão negativa e conturbada da vida das pessoas, já que momentos comuns próprios não possuíam um potencial instigador; e, portanto, não gerariam tanto entretenimento. Assim, na realidade, o mesmo acontece, também, de maneira inversa: aquilo que é exposto geralmente apresenta a intenção de ser visto pelo máximo de pessoas – seja real, ou ficção. E por mais que tais momentos sejam efetivamente verdadeiros, não se pode basear diferentes modos de vida e personalidades em apenas uma única ação, manipulada pelas lentes da fonte de que a emite. 

     Assim, não se tem um culpado a quem evitar ou criticar: apenas a libertação de padrões que são vendidos e comprados por nós repetidamente. Não se ter tudo o que outras pessoas possuem, ou não suceder com todas as exigências das expectativas de uma idealização, não é sinônimo de uma vida – individual ou amorosa – infeliz. Pelo contrário: deve-se utilizar esses meios a favor próprio no intuito de se conhecer o suficiente, a fim de não se manter preso às amarras há muito tempo socialmente enraizadas; e, logicamente, não condizentes com os valores morais de todos os seres humanos. 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Moda Old Money: meu bilionário favorito!! - Parte 1

É inegável que a Internet é um campo que permite diversas pessoas compartilharem seus gostos, influenciar massas, principalmente no campo da moda. Hoje discutiremos um pouco sobre o fenômeno do Old Money nas redes sociais e suas implicações sociais, sente-se e aproveite!




Afinal, o que é Old Money?

Old Money, na tradução literal, significa "dinheiro velho", ou seja, herança, moda dos herdeiros. O termo ganhou grande capilaridade com o TikTok, com hashtags que chegaram a atingir milhões visualizações, mas desde o início da pandemia do covid-19, em 2020, já esteve presente nas redes. Historicamente, esse estilo surgiu em regiões de acúmulo de capital durante e após a Revolução Industrial, principalmente nos Estados Unidos e partes da Europa. Possui raízes derivadas do estilo Preppy, que seria inspirado nos uniformes de estudantes de escolas particulares preparatórias dos Estados Unidos, entretanto, é mais ligado ao modo de se vestir dos burgueses do século XX, os quais podemos citar famílias tradicionais, herdeiros, que fazem parte da alta aristocracia da sociedade. 

Os looks apresentam suéteres, roupas de seda, ouro, pérolas, nomes de grandes grifes como Chanel e Ralph Laureen, porém sempre discretos, nunca com grandes logos e sempre presentes as cores neutras e atemporais. São principalmente inspirações de esportes elitizados, como o hipismo, golfe, tênis e polo. Sempre optando pela elegância sem extravagância. 


Mas o que tem de tão errado com esse estilo?

Por mais que esse estilo, que está inserido nos dias atuais entre os jovens na Internet, possa estimular certos hábitos mais sustentáveis e saudáveis com a moda - como optar por roupas de maior qualidade que poderão durar anos - ainda é pauta discutível, afinal, sofremos um seríssimo problema com descartes de roupas e a famosa fast fashion. Nesse caso sim, é interessante a ascensão de um estilo que opte por formas mais sustentáveis de se consumir a moda, ainda mais com a quantidade de conteúdo rápido presente em redes sociais como o TikTok, onde tais estilos duram menos de uma semana e caem em total esquecimento, estimulando ainda mais o consumismo exacerbado presente na nossa sociedade. No entanto, nossos olhos devem ser atentos: o aspecto social é muito mais impactante e esconde uma verdade dura e crua sobre o fenômeno do Old Money, a romantização da aristocracia e o classicismo. 

Esse estilo não é só presente nas roupas, também se apresenta na arquitetura, no lazer, na educação, é um estilo de vida, são herdeiros. Um ponto interessante de enfatizar é que o Old Money seria contrário aos intitulados New Money (na tradução literal, significa "novo dinheiro", os novos ricos), pois para eles são extravagantes demais, carregam logos de grifes, são outdoors públicos de marcas, vulgares...ainda sim, olhando mais profundamente, veremos apenas mais uma maneira dos ricos herdeiros de se distanciar dos novos ricos, que provavelmente nunca farão parte dessa aristocracia, porque não é totalmente pelo dinheiro (óbvio que é necessário), estamos falando do nome que importa, a herança. Não é de hoje que a burguesia cria métodos para se diferenciar do resto, dos trabalhadores, mesmo os que raramente são contemplados com a ascensão social, mostrando etiquetas, códigos, regras, parâmetros, que não podem ser alcançados pelos "outros" (mesmo que estes tentem replicá-los), por aqueles que não fazem parte desse grupo seleto, esse é o objetivo, criar a redoma indestrutível dos "sangue azul". Agora com o acesso das massas a esse estilo, será que os burgueses entregarão as cartas?


quinta-feira, 1 de junho de 2023

O que cupidos e filósofos têm em comum? - Parte 1

Dia dos Namorados, relações líquidas e o capitalismo da pós modernidade globalizada: não é só com beijos que se prova o amor!




    Era uma vez...

     O Dia dos Namorados, como é conhecido e comemorado no Brasil, em 12 de junho, é a data comemorativa correspondente ao “Valentine’s Day” – ou Dia de São Valentim -, celebrado no dia 14 de fevereiro ao redor do globo terrestre, e não comemora apenas o amor romântico; mas sim, o amor familiar e entre amigos. Apesar de semelhantes em sua essência, apresentam origens bem distintas que resultaram em um mesmo propósito: o lucro de comerciantes e da indústria de entretenimento de massa. 

   A data estrangeira teve seu provável surgimento no século III – popularizando-se, no entanto, no século V, a partir do reconhecimento do mártir São Valentim como santo. Admite-se que, na época, o padre unia jovens em matrimônio sob teor religioso em uma época que casamentos eram proibidos – o então imperador romano Cláudio II havia-os banido, com a alegação de que a constituição de uma família impediria homens de serem bons soldados. 

    Uma vez descoberto, Valentim foi preso e, antes de condenado à morte – decapitação essa que aconteceu no dia 14 de fevereiro -, estando apaixonado, escrevia cartas de amor assinadas “de seu Valentim”. Os poetas Geoffrey Chaucer e Charles d’Órleans incentivaram, durante os anos seguintes, a popularização da lenda ao creditar o mártir em seus textos. As grandes empresas, por sua vez, fizeram sua parte adotando data a partir dos séculos XIX e XX, através da globalização e consolidação do capitalismo. 


    O outro lado da moeda

    Já no Brasil, a data efetivou-se de fato no ano de 1949, através de uma ação de campanha publicitária para um loja por parte do publicitário João Dória, pai do ex-governador de São Paulo: junho era considerado um mês muito fraco para vendas, atingindo diretamente os comerciantes; por isso, sugeriu o dia 12 de junho – aproveitando-se de o dia anterior ser considerado o dia do santo casamenteiro, Santo Antônio – como o Dia dos Namorados. 

    Essa data, que contava com o slogan “não é só com beijos que se prova o amor”, deveria ser utilizada para presentear seu parceiro e pessoa amada com o mais vasto leque de opções – e, até os dias atuais, junho é um dos mais fortes meses de venda. 


    Comprando, consumindo, amando

    Nesse sentido, o que não faltam são motivos para reconhecer-se o teor capitalista e lucrativo que é atrelado à data. Durante o passar dos anos, novos presentes são inventados, reinventados e vendidos a preços exorbitantes – e até mesmo os clássicos e simples são, ainda, comprados em desmesurada escala. Mas o que esse valor simboliza dentro de um relacionamento? Gastar com um companheiro prova amor ou o amor é comprado pelo dinheiro? 

    E nessa conjuntura, o capitalismo não se beneficia do amor apenas através de uma ocasião específica: mas sim, por meio de um consumo em massa de obras que vendem uma idealização de amor, justamente para tal fim. Através de produções cinematográficas, por exemplo, é recorrente a entrega de presentes àqueles quem a personagem está tentando conquistar ou redimir-se, substituindo até mesmo erros por bens materiais – em muitos desses estereótipos, a ação funciona de maneira exemplar. A partir da consumação desses conteúdos em diferentes fases da vida, a tendência é uma inconsciente reprodução de comportamentos que são ofertados como corretos ou o caminho a ser seguido. Essa proliferação de comportamentos, no entanto, não se restringe apenas ao âmbito das compras. 

    Existe, ainda, uma implícita comparação com o “relacionamento midiático” – seja com celebridades, influencers ou até mesmo conhecidos: o que se absorve é o que é exposto nas redes sociais. A partir disso, expectativas e definições da qualidade de um relacionamento podem ser alteradas, através do desejo de ter para si “algo tão bom” quanto o parâmetro de admiração estabelecido – analogia que pode ser feita não apenas com bens materiais; mas também, com ações. 

    No entanto, não se trata de responsabilizar o relacionamento, a comemoração da data festiva em si ou a troca de presentes como objeto de culpa: mas sim, propor o questionamento da influência dos valores que esse dia – e suas conseguintes imposições – exerce sobre o relacionamento e individualidade humana, independentemente da situação amorosa em que se encontra. Receber ou não presentes – e sua congruente qualidade – não deve ser fator decisivo para determinar a índole de um parceiro em sua relação, assim como demonstrações de carinho e respeito não devem ser “reservadas” apenas para um dia dos 365 que compõe o ano.